A alternativa da ousadia
A Tarde | REVISTA DA TV | 14/12/2008
A alternativa da ousadia
Na primeira aparição de Capitu na minissérie de Luiz Fernando Carvalho que a Globo levou ao ar esta semana, a personagem anda por um palco, riscando o chão com um pedaço de madeira, como se desenhasse na areia da praia. A Capitu jovem, de 14 anos, traça uma linha, mas quem anda sobre ela é o Bentinho já velho e amargurado, transformado em Dom Casmurro. Na trilha sonora, a canção Elephant Gun, da banda americana Beirut – música dos anos 2000 para um amor do século XIX.
Essa foi a tônica da produção: margear Machado de Assis, atingir seus pontos altos tangencialmente. Carvalho não encarou o autor de frente. De maneira radical, substituiu a ironia minimalista por uma ópera-rock extravagante, lírica e excessiva, de modo a se esquivar de qualquer obrigação de fidelidade, e poder, ainda assim, honrar os originais. Figurativamente, Machado vai pro espaço na edição frenética, no tom teatral e na direção de arte pós-moderna, que transforma o muro de Bentinho e Capitu num chão de giz. Por outro lado, o autor está lá com toda a força de seu texto, dessacralizado para maior impacto.
Depois de levar seu radicalismo a abismos intransponíveis com A Pedra do Reino, adaptado de Ariano Suassuna, o diretor voltou a conciliar suas experimentações com uma acessibilidade capaz de comover o telespectador. A minissérie perdeu cinco pontos de audiência para o padrão da faixa de horário, mas conseguiu se manter na liderança.
Contramão – O mastodonte na sala-de-estar, que é essa minissérie, expõe toda a fragilidade da Globo. Não há uma iniciativa em ficção do canal (e da TV aberta brasileira) que pare em pé diante de tanto brilhantismo. Desde o fim da magnífica Os Maias, de Maria Adelaide Amaral, também dirigida por Carvalho, a fidelidade reverente a grandes obras e personalidades só tem resultado em produtos engessados, com uma dramaturgia de Telecurso 2000. De Yolanda Penteado a Juscelino Kubitschek, os personagens da linha de grife da Globo falam textos didáticos em tom auto-importante. Maysa – Quando Fala o Coração, minissérie de Manoel Carlos que estréia em janeiro, parece ser mais um exemplo desse engessamento. Atrás das câmeras, o filho de Maysa e responsável principal pela má dramaturgia típica do selo Globo de Qualidade, Jayme Monjardim – que fez Pantanal, mas passou o resto da carreira em novelas de Glória Perez e nas tais minisséries estilo Telecurso. Na lógica invertida da Globo, seus trabalhos viraram símbolos de qualidade, o que lhe permitiu dirigir o desastroso longa-metragem Olga, que pouco se diferencia de seus produtos televisivos , como A Casa das Sete Mulheres ou O Clone.
Diferença de públicos à parte, talvez seja a hora de a Globo começar a seguir os passos da TV americana, que tem se sofisticado cada vez mais, sem subestimar o telespectador.
A crise de audiência das novelas revela uma impaciência sem fim com essas xaropadas das seis, sete e oito produzidas em larga escala. Capitu, por outro lado, não é caminho a ser trilhado cotidianamente, mas sua ousadia mostra que há alternativas possíveis, sem sacrifício imediato da audiência.


